Abstract:
Sangradouros são pequenos riachos que rompem o cordão de dunas frontais em direção à
zona de arrebentação marinha. Estes sistemas ocorrem ao longo dos 620 Km da costa do estado
do Rio Grande do Sul, no sul do Brasil. O objetivo dessa dissertação foi investigar os padrões de
composição de espécies, abundância e diversidade da ictiofauna de sangradouros. As relações
entre as mudanças sazonais na estrutura da assembléia e fatores ambientais também foram
analisadas. A salinidade, precipitação, direção e intensidade dos ventos e a temperatura foram os
principais fatores estruturantes da assembléia de peixes nos sangradouros. Durante as coletas,
não foi registrada a formação de um gradiente de salinidade ao longo do eixo marinho-límnico.
Entretanto existem evidências de que esse gradiente ocorra durante eventos de ressaca, quando o
mar avança sobre os sangradouros. Mesmo na ausência do gradiente de salinidade, foi possível
observar que ao longo do período estudado as espécies marinhas foram mais abundantes em
zonas próximas da conexão do sangradouro com o mar, enquanto espécies de água doce
primárias foram mais abundantes em locais distantes da conexão com o mar. As espécies de água
doce secundárias, que possuem tolerância à salinidade, não apresentaram diferenças na
abundância entre os locais. Embora de curta duração (1-2 dias), os eventos de ressaca foram
frequentes ao longo do período estudado, principalmente durante o outono e inverno. Esse
período coincidiu com uma grande descarga de água doce advinda da precipitação,
principalmente no inverno, que intensificou a descarga dos sangradouros e dificultou a entrada
de espécies marinhas. A ocorrência de espécies marinhas dentro dos sangradouros se deu
principalmente no outono e verão. A tainha Mugil liza e o barrigudinho Jenynsia multidentata
foram as espécies mais frequentes e abundantes nos sangradouros. A tainha foi mais abundante e
atingiu maiores tamanhos dentro dos sangradouros do que na zona de arrebentação marinha. Isso
sugere a hipótese que juvenis da tainha usam os sangradouros por um curto período como área
de crescimento e, após atingir um tamanho de aproximadamente 100 mm, eles retornam para o
mar em busca de grandes estuários para continuar seu desenvolvimento.
Coastal washouts are small creeks that burst out the foredunes ridges in direction to the
marine surf-zone. These systems occur along the 620 Km of the Rio Grande do Sul state
coastline, in southern Brazil. The aim of this dissertation was investigated the species
composition, abundance and diversity patterns of the ichthyofauna in coastal washouts. The
relationships between seasonal changes in fish assemblage structure and environmental factors
were also analyzed. Salinity, rainfall, wind’s intensity and direction and temperature seemed to
be the most important environmental factors structuring the fish assemblage in coastal washouts.
During samples was not recorded the formation of a salinity gradient along the marinefreshwater axis of the coastal washout. However, there is evidence that such salinity gradient
occur during storm surges, when the sea advances over the coastal washouts. Even in the absence
of this gradient, it was possible to observe throughout the study period that marine species were
more abundant in the sampling site nearear the connection of the washout with the sea, whereas
primary freshwater species were most abundant in the site located further away the sea
connection. Secondary freshwater species, which have some degree of salinity tolerance, did not
showed difference in abundance between sites. Although short lived (1-2 days), storm surge
events occurred frequently over the studied period, especially during autumn and winter. This
period coincided with an intense freshwater outflow triggered by rainfall, especially in winter,
which intensified freshwater discharge out of the washouts and hindered the entrance of marine
species. The occurrence of marine species inside coastal washouts was mainly during fall and
summer. The mullet Mugil liza and the livebearer Jenynsia multidentata were the most frequent
and abundant fish species in the coastal washouts. The mullet was more abundant and reach
greater sizes inside the coastal washouts than in the marine surf-zone. This suggests the
hypothesis that mullet juveniles uses coastal washouts for a short period as a growth area and,
after reaching a size of approximately 100 mm, they return to the sea in search of large estuaries